Unanimidade é algo praticamente impossível de se conseguir em qualquer ramo, especialmente no esporte. No entanto, quando se discute quem foi a melhor enxadrista feminina de todos os tempos, a resposta é sempre a mesma: Judit Polgar.
E para a alegria dos enxadristas brasileiros, a enxadrista húngara esteve no Brasil, na cidade gaúcha de Caxias do Sul, promovendo o xadrez na Festa da Uva e divulgando a versão em português do seu livro “Chess Playground 2″ – ilustrado por Sofia Polgar, irmã de Judit.

Judit Polgar em partida simultânea realizada no Brasil, na cidade de Caxias do Sul - RS (Foto: Divulgação)
Em seu blog oficial, Judit Polgar recordou da primeira vez que esteve no Brasil, em 1996, quando ela esteve em São Paulo e venceu um match de xadrez rápido contra o GM Gilberto Milos por 2,5 a 1,5. Na mesma publicação, ela afirmou a expectativa de como seu livro seria recebido pelas crianças brasileiras.
Desta vez, a enxadrista húngara deu uma palestra sobre seu livro “Chess Playground 2″, ofereceu uma simultânea e ainda disputou dois torneios de xadrez: um fechado, com outros três GMs – o uruguaio Andrés Rodriguez (considerado por Judit o melhor enxadrista do Uruguai), e os brasileiros Mequinho e Gilberto Milos, velho conhecido de Judit; e um aberto, disputado nos dias 3 e 4 de março.
Judit Polgar novamente superou Milos e venceu o torneio fechado. No entanto, três empates no Torneio Aberto Internacional da Festa da Uva acabaram deixando a enxadrista na segunda posição, atrás apenas do GM Gilberto Milos, que empatou apenas uma única vez.
No fim desta segunda-feira (5), Judit deixou um recado de despedida do Brasil em sua página na rede social Facebook, onde ela classificou a viagem como “uma grande aventura, com experiências das quais ela se lembrará para sempre” e afirmou que “os brasileiros amam xadrez”. Ainda na mesma mensagem, a enxadrista se disse “pronta para voltar [ao Brasil] em uma outra oportunidade”.
O Gênio que o “papai” criou
Wolfgang Amadeus Mozart é considerado um dos maiores prodígios da música clássica de todos os tempos. No entanto, um fato que a maioria das pessoas ignora é que, por trás da genialidade precoce do compositor austríaco, estava seu pai, Leopold Mozart, que era professor de música. O pai teria instruído o jovem Mozart desde a mais tenra idade, o que teria potencializado seu desenvolvimento.
A história é semelhante à do golfista Tiger Woods, também apontado como um dos melhores de todos os tempos em sua modalidade. No livro “Training a Tiger”, o pai do atleta, Earl Woods, revela que costumava fazer o filho observar suas tacadas de golfe desde que nasceu. Com 1 ano e meio, o jovem Tiger já havai começado um contato direto com o esporte.
Tiger Woods é apenas um ano mais velho que Judit Polgar. No entanto, a semelhança entre eles está na mesmo nos pais. Conhecendo a história de Mozart, o professor Lázaro Polgar elaborou uma teoria: gênios não nascem, são feitos. No livro “Bring Up Genius!”, ele teorizou sobre como o treinamento – e não uma habilidade prodigiosa inata – era importante para o surgimento de um gênio. Decidido a provar a eficácia de seu método, ele procurou uma mulher que aceitasse ajudá-lo na experiência. E encontrou: Klara, que assim como Lázaro, também era professora.
Os dois se casaram e, da união, nasceram três mulheres que mudariam a forma que o mundo – incluindo no rol o ex-campeão mundialGarry Kasparov, considerado por muitos o “Pelé” do xadrez – encarava o xadrez feminino: Zsuzsa, Zsófia (Susan e Sofia) e, claro, Judit Polgar.
Em casa, as irmãs receberam uma educação especial por parte dos pais, que não precisaram esperar muito tempo para colher os frutos. Com 4 anos de idade, Susan Polgar ganhou um torneio para meninas com até 11 anos de idade. Judit, a filha caçula do casal, já era uma enxadrista melhor que o pai aos 5 anos.
Ao longo dos anos, Judit Polgar provou que a teoria do pai estava certa. Com apenas 15 anos, ela se tornou a enxadrista mais jovem a obter o título de Grande Mestre, quebrando o recorde que até então pertencia ao norte-americano Bobby Fischer.
Em 1993, com apenas 17 anos, Judit Polgar disputou um match contra o ex-campeão mundial Boris Spassky. Após 10 partidas, o soviético acabaria derrotado por 5,5 a 4,5. A carreira da enxadrista ainda lhe reservaria confrontos – e vitórias – contra alguns dos maiores nomes do xadrez mundial, como Garry Kasparov e Anatoly Karpov.
Duelo de nº. 1
Garry Kasparov, na época enxadrista nº. 1 do mundo, afirmou certa vez que poderia ganhar de qualquer mulher do mundo cedendo um cavalo de vantagem. Judit Polgar obrigou o enxadrista russo a rever seus conceitos.
Os dois se enfrentaram pela primeira vez em 1994. Kasparov não deu cavalo algum de vantagem, mas acabou vencendo. No entanto, a partida ficou marcada por um controverso lance do enxadrista russo, que pareceu ter soltado uma peça em uma casa mas, rapidamente, a moveu para outra posição. Polgar não reclamou, mas afirmou mais tarde que tivera a impressão de que Kasparov largara a peça.
Embora o russo tenha negado, a partida estava sendo gravada. Um exame cuidadoso do vídeo provou que, de fato, Kasparov soltara a peça por uma fração de segundo. Para azar de Judit, infelizmente, não existia no xadrez – e não existe até hoje – a tecnologia hawkeye utilizada em alguns torneios de tênis.
Mas o xadrez faria justiça com Judit Polgar no clássico. Em setembro de 2002, um match entre Rússia e o resto do mundo colocou novamente o nº. 1 absoltuo e a nº. 1 feminino frente a frente. Desta vez, Judit Polgar provou que era, sim, capaz de vencer Kasparov sem precisar de cavalo algum de vantagem. A vitória da enxadrista húngara ajudou o time do resto do mundo a vencer o match por 52 a 48. Foi a primeira vez na história do esporte que o número 1 entre os homens perdia para a número um entre as mulheres em uma modalidade.
Brazilian Days

Judit Polgar ao lado de crianças brasileiras em uma sessão de autógrafos do seu livro "Chess Playground 2", traduzido para o português (Foto: Divulgação)
Judit Polgar deixou o Brasil levando consigo boas recordações, mas também deixou boas lembranças para os sul-americanos. Dois GMs, o argentino Sandro Mareco e o paraguaio José Fernando Cubas; e um MF, o catarinense Alfeu Varela Bueno, somaram no currículo um empate contra a melhor enxadrista feminina de todos os tempos.
No Torneio Aberto, Judit Polgar não perdeu nenhuma partida. No entanto, alguns enxadristas que participaram da simultânea com a húngara conseguiram sair de lá com a vitória. E um deles é do Paraná. De acordo com informações publicadas por Murilo Gimenez Salustiano no grupo Xadrez – PR na rede social Facebook, o curitibano Henrique Nemeth Junior conseguiu vencer Judit Polgar na simultânea.








